eu vejo você se matando de perto e de longe. escuto o abrir do armário, a tampa saindo da garrafa, o copo sendo lavado e posto no mármore frio da pia. meus ouvidos doem quando escutam essa rotina algumas vezes por dia. meus olhos já nem se arriscam enxergar esse vício. meu olfato - bem dotado - sente seu cheiro de podridão, de fígado podre declarando morte. eu já joguei todas garrafas fora, já falei com palavras mansas e agressivas. pára, por favor. eu não quero perder ninguém, não posso perder você. tem muita coisa pra você assistir ainda, tanta coisa pra conhecer de mim.
cansei de chegar da rua e ter que lhe cobrir no sofá e desligar a tv. cansei das ofensas e dessa barreira infinita que existe entre eu e você. dói tanto saber que isso não vai acabar nunca, só tende a piorar.
a culpa é de ninguém e é de todo mundo, desde sempre, para sempre.
é tanta falha humana que já nem sei o que precisa ser feito. tornei-me egoísta, fria, distante, uma estranha no ninho.
a falta de amor me derruba, o vazio - cheio de coisas - me faz ir pra longe (de você). tão longe.
acho que Deus sente asco por essa situação toda, e não falta muito pra eu sentir o mesmo.
asco é um sentimento e uma palavra horríveis. (mas é uma das minhas palavras preferidas)
não quero pensar como tudo isso pode terminar um dia, só sei de uma coisa: eu nunca serei como você - embora eu tenha muito de você em mim.