eu mesma me desenterrei, tirei o pó e me coloquei na estante de
madeira. bem ao seu lado, ao lado do seu perfume paco rabanne
que te dei, ao lado dos livros e dos filmes de suspense, ao
lado do santo sem nariz que seu pai pediu pra colocar ali. tão
presente na sua rotina de olhar. tudo tão simbólico (para mim).
e você me perguntava com os olhos porque eu estava triste e eu
me contive em sorrir bonito.
22 fevereiro, 2010
12 fevereiro, 2010
meu pré-carnaval
nada mudou, os móveis continuavam no exato lugar. só não existia mais minha foto na estante, meu cheiro no travesseiro ou no armário. não existia mais nosso retrato empoeirado. e entre choro angustiante e nostálgico, houve amor, pele e dor, muita dor. a chuva diária caía forte lá fora e o cheirinho de asfalto e terra molhada entrava no quarto junto com o incenso aceso e a erva queimando. nossos sorrisos congelados e secos, cantamos 'use somebody' com a alma explodindo e os olhos úmidos, dançamos beatles e sentimos aqueous transmission com os braços e costas coladas uma na outra. uma sintonia do caralho que me deixava sem fôlego, em êxtase, com medo e com saudade. a chuva parou lá fora e acabou a sintonia, o medo prevaleceu, as verdades se confundiram com as mentiras, perguntas, a dor doída que só me fez fugir sem olhar para trás, as palavras duras em voz de veludo querendo sair e que não saíram. e no fim, matei-as dentro de mim.
08 fevereiro, 2010
não uso drogas
no escuro imenso, escutei meu nome e senti mãos me tocando, mas na verdade não sentia meu corpo, parecia flutuar. devagar fui sentindo o peso da gravidade em cima de mim, do meu rosto colado no chão. formigava e eu suava frio, pálida, sendo erguida por braços que me amam e só queriam me socorrer. as horas não passavam e a cada segundo parecia que minha cabeça explodiria. pedi gelo mas até o peso dele me doía e o sono não vinha. chorei de medo, de dor, de aflição. não usei e nem uso drogas, só me droguei de risadas e de pessoas queridas e bêbadas. preciso acreditar que foi esse calor paulistano que me fez delirar e desmaiar.
07 fevereiro, 2010
são paulo ficou vazia.


são paulo estava cheia de amor e cheia de gente ao redor, sentia-se o calor nordestino e paulistano, o gosto de cerveja todo dia na boca e o cheiro de cigarro nos dedos. abraços demais, palavras demais, sinceridade demais, muita chuva e uma loucura de sensações, que vinham e voltavam com a saudade e o álcool. o tempo correu contra mim e hoje sinto são paulo mais vazia. e esse vazio tende a crescer mais, até a dor no peito ficar (quase) fatal.
naquele chão, pernas de índio, cervejas e cigarros, falamos dos nossos heróis e das dores superadas ou não com lágrimas nos olhos. consegui sentir cada palavra penetrando na minha pele e eu só conseguia absorver vocês. o sentimentalismo cotidiano e claro, alcoólico, me fez amar ainda mais vocês, me fez perceber que vocês vão embora e eu me senti fraca, sozinha demais. foi a primeira vez que dei-me conta da saudade futura e nos abraços intensos, escorreu de mim, uma lágrima colorida. colorida por ser triste mas por ser tão bom ver vocês no mundo, dando as caras e crescendo. eu me preenchi de vocês e agora só quero transbordar esse amor sincero e real, sentindo saudade dos nossos cotidianos juntos. e na volta, a vila olímpia tornou-se maior e perdidas, bêbadas, eu estava tão bem porque tinha vocês comigo, me fazendo esquecer de coisas que preciso esquecer.
só quero transbordar vocês, hannah, erika e mariel.
(fotos: Gabriel Cabral)
03 fevereiro, 2010
fundidos
saudade da pele com pele, do gosto de suor, da língua contornando o corpo, dos dedos me (re)desenhando, dos sussurros, do cabelo despenteado, das roupas no chão, dos não-segredos, da sintonia perfeita que enchia o quarto até quase transbordar por entre os vãos. saudade do calor, do escuro visível, das mãos, dos pés encolhidos, do lençol bagunçado, dos corpos fundidos.
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