29 julho, 2010

cheiro de lírio e cores de gérberas



tenho muito imaginado os cômodos. não sei quantos seriam, com certeza não muitos, mas o suficiente pra se viver. penso em cada parede, em qual teria fotos ou palavras ou apenas tinta, mas claro, todas terão muito de mim. penso no piso: piso gelado ou carpete? aprendi a gostar tanto de cimento queimado. mas talvez essa opção fique para um futuro mais concreto. penso nos lençóis que compraria, se seriam cores suaves ou vibrantes, estampados ou lisos. penso nos copos, em toda a louça, no guarda roupa. desejo tanto um lugar bonito, doce, feito de mim e para mim. cheio de amor e calmaria. longe do caos que é minha vida hoje. sei que o caos sempre sempre sempre estará presente em todas suas formas caóticas, porém não teria ninguém para eu cuidar além de mim. não teria ninguém no sofá quando eu quisesse sentar e assistir a um filme, não teria ninguém ao telefone quando eu quisesse dizer oi para alguém, não teria ninguém ao banheiro quando eu quisesse tomar um banho só pra relaxar. tudo aqui é sufocante é desgastante demais. não há privacidade para ler um livro ou até mesmo para chorar quando dá vontade. cansei de fugir das pessoas, das paredes finas, das conversas sérias por celular. cansei de fugir de mim mesma, da minha desculpa da falta de espaço, da falta de tempo, eu cansei da minha mesmice, da monotomia desses dias. preciso de um ar que só respirarei e sentirei quando estiver definitivamente fora daqui. preciso aprender a me sustentar, a sofrer sozinha e a dormir no escuro. tenho pensando muito em duas palavras: (ser) indivíduo e (ter) liberdade. preciso entender o que é ser um indivíduo nessa sociedade massacrante, entender o que é aluguel e comida na geladeira. preciso preservar o amor (e isso só longe daqui!). preciso me "prender" em outras tantas coisas (boas).
deixe eu sonhar nas cores das toalhas penduradas no box, com as prateleiras cheias de tinta, com as revistas recortadas pelo chão, com os pés descalços, com o som alto, com o incenso e o cigarro acesos, a geladeira cheia de coisas que eu gosto, com os chinelos na porta, com os espelhos e quadros pendurados nas paredes, as frutas frescas, as roupas limpas empilhadas no guarda roupa, o cheiro de limpeza que eu gosto, o cheiro de lírios e gérberas de todas as cores. afinal a gente precisa sonhar para viver. e eu preciso viver.