criamos a rotina de nos desejar.
você chega tarde, abro a porta e ganho um beijo na boca, sentamos na sala, tentamos entrar na mesma sintonia de sorrisos e mãos que fazem carinho, o sofá nos engole, bebemos cerveja gelada ou o resto do vinho na geladeira, sinto seu cheiro de banho e cabelo lavado, gosto de ficar olhando suas mãos sujas de tinta, você fala tanto que chega a ser assustador e apaixonante. você me chama ou me leva para o quarto, diminuímos as luzes, e cada noite é uma descoberta de corpo e de vontade, uma construção de intimidade e prazer.
você começa a vestir suas roupas e eu nem posso deitar sobre seu peito nu ofegante. nem posso sentir seu abdômen durinho ou te beijar mais um pouco.
você vai embora e sempre fico olhando a movimentação das luzes de são paulo no meu teto e construindo histórias, tentando escrever sobre você, sobre suas fugas ou carências. tento entender o que você faz com meu corpo ainda molhado.
e sei que no dia seguinte talvez não nos falaremos. mas te vejo nas paredes de são paulo, no cruzamento da consolação ou na falta do meu isqueiro azul.