o papo era sobre música dos anos 60, 70 e 80. ela mais escutava do que falava, como de costume.
um rapaz, como tantos outros que vão a praça roosevelt sozinhos, escutava a conversa e veio dar a sua opinião descartável.
num mundo machista, elas nem deram bola. até que ela se viu com dois estranhos, falando sobre música e muitas outras coisas que nem faziam mais sentido. um dos rapazes, loiro, de olhos azuis, aquele cara que tem tudo pra ser bonito mas é feio, começou um papo mais intimista e eles se encostaram na parede. ele comentou que ia pra holanda, porque havia uma mulher com seu filho, que ainda crescia dentro dela, esperando por ele. e justamente por essa mudança de vida, ele trabalhava como garçom num restaurante no higienópolis por mais alguns dias.
você parece triste.
essa tristeza é só porque costumo abaixar a cabeça? não confunda timidez com tristeza.
você parece ser tão sincera e segura de si mesma.
uma das coisas que mais sou: ser sincera comigo mesma. talvez isso transpareça como segurança.
ela deixou claro no decorrer da conversa que não queria nada com ele, embora reconhecesse o valor daquela conversa. ele logo foi embora porque estava cansado.
ela voltou para a roda dos seus amigos, tentando entender o que tinha acontecido. e percebeu que todos olhavam a lua e diziam o quanto ela estava linda.
minutos depois, o cara loiro voltou e a cutucou.
oi, eu tava voltando pra casa e no caminho vi o quanto a lua está linda, aí voltei pra te mostrar.
você não precisava voltar, eu já vi a lua. ela está linda mesmo.
vem aqui, dá pra ver melhor naquele lugar ali.
e foram.
olha, eu sei que você não quer me beijar, mas posso encostar meu rosto no seu? preciso muito sentir seu rosto.
ela, com muito receio, cedeu seu rosto.
ele fechou os olhos e encostou a bochecha dele na dela.
eles riam enquanto a lua brilhava.
eu preciso ir embora.
ela saiu, entrou no carro da amiga, e eles nunca mais se viram.