15 abril, 2015

encontros na praça roosevelt

o papo era sobre música dos anos 60, 70 e 80.  ela mais escutava do que falava, como de costume.
um rapaz, como tantos outros que vão a praça roosevelt sozinhos, escutava a conversa e veio dar a sua opinião descartável.
num mundo machista, elas nem deram bola. até que ela se viu com dois estranhos, falando sobre música e muitas outras coisas que nem faziam mais sentido. um dos rapazes, loiro, de olhos azuis, aquele cara que tem tudo pra ser bonito mas é feio, começou um papo mais intimista e eles se encostaram na parede. ele comentou que ia pra holanda, porque havia uma mulher com seu filho, que ainda crescia dentro dela, esperando por ele. e justamente por essa mudança de vida, ele trabalhava como garçom num restaurante no higienópolis por mais alguns dias.

você parece triste.
essa tristeza é só porque costumo abaixar a cabeça? não confunda timidez com tristeza. 
você parece ser tão sincera e segura de si mesma.
uma das coisas que mais sou: ser sincera comigo mesma. talvez isso transpareça como segurança.

ela deixou claro no decorrer da conversa que não queria nada com ele, embora reconhecesse o valor daquela conversa. ele logo foi embora porque estava cansado.
ela voltou para a roda dos seus amigos, tentando entender o que tinha acontecido. e percebeu que todos olhavam a lua e diziam o quanto ela estava linda.
minutos depois, o cara loiro voltou e a cutucou.

oi, eu tava voltando pra casa e no caminho vi o quanto a lua está linda, aí voltei pra te mostrar.
você não precisava voltar, eu já vi a lua. ela está linda mesmo.
vem aqui, dá pra ver melhor naquele lugar ali.

e foram.

olha, eu sei que você não quer me beijar, mas posso encostar meu rosto no seu? preciso muito sentir seu rosto.
ela, com muito receio, cedeu seu rosto.
ele fechou os olhos e encostou a bochecha dele na dela.
eles riam enquanto a lua brilhava.

eu preciso ir embora.

ela saiu, entrou no carro da amiga, e eles nunca mais se viram.