15 outubro, 2013

verbalização de abraços

como de costume, ela colocou a saia florida-romântica, a calcinha de renda, passou rímel e seu perfume doce. fumou vários cigarros no trânsito para amenizar a ansiedade. mandou mensagem dizendo "estou na porta" e acendeu outro cigarro. ele abriu o portão e disse pra ela entrar pela lateral da casa e descer as escadas. lá embaixo ele deu um beijo frio no rosto dela. os dois estavam nervosos, meio gelados, meio sem saber o que fazer. ele mostrou o ateliê dele, a estante de sprays, a mesa que construiu sozinho, o ventilador que achou na rua e instalou sozinho. colocou umas músicas meio eletrônicas, tão a cara dele, e ela gosta, embora só escute com ele. sentaram de frente um pro outro e acenderam um beck. foram sorrisos gostosos junto com olhos baixos vergonhosos e pernas trêmulas. 

eu não consegui te abraçar porque se sentisse seu cheiro não ia resistir. você percebeu que não te abracei? 
(ele fechou o olho e respirou fundo imaginando ou lembrando o cheiro dela, enquanto falava)

sim, achei você meio frio mesmo. mas entendo.
(por dentro ela estava pulando de amor pela confissão, porque ela sentiu falta do abraço)

ai, você me desculpa? quero muito te abraçar, você sabe, mas é que ...


os corpos diziam. não era preciso verbalizar. mas ele gosta de verbalizar, como ela.
antes de subir as escadas e passar pela lateral da casa, ela pediu um abraço. afinal ninguém é de ferro.
ele sorriu e a abraçou daquele jeito gostoso, nariz no cangote, mãos na cintura e o mundo inteiro dentro deles.

14 outubro, 2013

sonhar não dá frio na barriga

a gente sonha a vida inteira, e quando está prestes a tornar realidade, sentimos um medo do caralho.


10 outubro, 2013

você gosta de adiar o prazer?

quando dois corpos quase transbordam sem ao menos ser tocados.
quando um teto baixo chega a sufocar de tanta energia trocada.
quando o sorriso não sai da boca por estar ali, na sua frente, chapada.
quando o racional consegue ser mais forte que qualquer outra coisa.
quando existe o encontro de desejos.
quando existe o desencontro de tempo.


03 outubro, 2013

único pensamento do momento

"falta tão pouco, tão pouco!"

27 setembro, 2013

calmaria autocontrolada

depois de muito omeprazol, cigarro, gritos, perda de cabelo, soro na veia, você entende que é preciso ter calma. é preciso ter calma no caminhar, nas baldeações de metrô/trem em são paulo, calma no trânsito, calma nas conversas mais sérias, calma na hora do emprego novo, das amizades novas, dos amores novos.
tenho escutado muito o quanto eu sou calma.
"queria ser calma como você!", e por dentro quero dar risada pensando que calma o caralho, eu só sou educada e tenho bom senso. porém hoje parei e olhei dentro de mim e o peito o coração a mente e o corpo estavam calmos. e eles tem estado calmos.
entendi que é possível autocontrolar a calmaria dos dias, dentro de mim.

23 setembro, 2013

nova fase

não querer as coisas fáceis
aprender a falar não sem arrependimento algum
me entregar somente quando eu realmente estiver afim fisicamente e psicologicamente
dar mais chance ao novo
sonhar menos
fazer mais
entender que as escolhas trazem sacrifícios momentâneos para um dia tudo fluir e ser melhor
respirar ares novos
construir rotinas novas, caminhos novos, paisagens novas, paredes novas
continuar perto de quem me ajudar a construir

06 setembro, 2013

vermelho amargo

o mar escondia-se depois de muito pensamento

04 setembro, 2013

flores raras


A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. 






Elizabeth Bishop

02 setembro, 2013

machistas contemporâneos

se diz contemporâneo, artista, sensível, luta contra a especulação imobiliária, contra os carros, contra o estupro e o machismo, é a favor do aborto, compartilha várias matérias-sociais, é ativista dentro do seu espaço e entendimento de vida, ama o meio ambiente, tira mil fotos das plantas na janela do quarto, faz todo um tipo de cara foda, de pessoa com a mente aberta, a favor da verbalização sentimental e da valorização da mulher só que te faz chupá-lo a noite inteira até gozar na sua boca. e não toca em você. em nada. veste a roupa e diz que precisa ir embora porque tá tarde.

machista de merda.

eu tiro toda sua máscara de cara fodão ativista de facebook quando trepo com você e vejo que é uma merda: que seu sexo e você são tudo merda.

01 setembro, 2013

o não vem depois de muito sim

ele sempre a desejou muito com os olhos.
eles sempre dão um jeito de se olhar e sorrir no meio das pessoas.
dançaram até as 5 horas da manhã. a pista era somente deles.
ele bebia resto de bebidas dos copos deixados sobre a mesa, totalmente bêbado.
ela estava completamente sóbria e cansada do dia longo que teve.

tô indo embora, quer carona? sua casa é caminho da minha.
mini saia, mãos nas coxas, pingos de catuaba na camiseta branca.
quer subir?
não, to muito cansada, só quero minha cama.
prometo que a gente só dorme.
(os olhos dele quase nem conseguiam ficar abertos)

ele a beijava tocava apertava chupava seus peitos e enlouquecido dizia que o 'não' dela era bobo e desnecessário. tentava abrir a camisa, a levantar a saia e a desligar o carro. não, hoje não, hoje não quero. e os carros insistiam em passar na avenida que já estava clareando.

ela entendeu que é preciso dizer não.
entendeu que para não sentir mais esse vazio, é preciso realmente estar com vontade, não apenas viver aquilo porque sempre é fácil. as coisas fáceis são fáceis. elas cansam justamente por serem fáceis.

take it easy, man.

(conforme foi saindo da frente do prédio dele, pelo retrovisor, o via com o copo vazio na mão e o pau duro preso na calça jeans)