27 junho, 2014

essa tal impermanência

era uma segunda-feira de fevereiro. peguei o trem e fui até aquela estação longe. ele passou de carro e me apanhou na porta na estação. fazia sol, mas parecia um dia de outono, ventinho fresco na sombra. ele me levou até um museu da cidade em que estava tendo a individual dele. como todos sabem, segundas-feiras museus não abrem, mas pra mim, ele abriu. éramos só nós dois pisando naquele piso de madeira que faz barulho quando a gente anda e todas as cores que ele sabe juntar. éramos nós dois no chão e na parede. 
lembro de estar um pouco nervosa. eu sempre fico nervosa ao lado dele. acho que são tantos pensamentos e sentimentos contidos que a gente fica nervoso, parecendo dois adolescentes.
entre um quadro e outro, uma caixa e outra, a gente se puxou naquelas salas vazias só pra gente e nos amamos diante de tudo aquilo criado muito desse amor. sempre falei o quanto quis ser a inspiração dele.  e ele já me disse várias vezes o quanto o inspirei.
impermanências ali. impermanências em nós.
voltando ao mundo real, enfrentamos o trânsito de fim de tarde e ele me deixou na mesma estação, no beijo de despedida ele olhou nos meus olhos e disse "eu te amo". nosso primeiro eu te amo dito pessoalmente, em voz alta, olho no olho, coração acelerado.
ah, e só de pensar que essa foi a última vez em que nos vimos e faz tanto tempo.

12 junho, 2014

na língua dos amantes

depois de dizer que gosta da minha bota de couro, do jeito que me visto, do jeito que jogo meu cabelo de lado, do jeito que pinto meus olhos, ele vem dizer, com a voz mais grave que já escutei nos ouvidos, que eu não mereço esse tipo de felicidade.
depois de me beijar de todos os jeitos, depois de me deixar totalmente molhada e louca, depois de cheirar meu cangote a noite inteira, depois de pegar na minha cintura com força, ele vem dizer que mereço alguém que não seja comprometido.
hey, meu bem, vou lhe dizer uma coisa, nessa língua dos amantes não se diz tudo isso. na língua dos amantes primeiro você satisfaz o outro e se satisfaz, depois o resto é resto.

16 maio, 2014

o desconhecido é curioso

enquanto pegava uma guiness, ela olhava pelo espelho que tinha atrás do bar. fazia tempo em que ela não paquerava assim, num balcão da balada. ora dançava numa das pistas favoritas de são paulo, com suas luzes rosas e rock nos pés, ora debruçava-se no balcão e jogava charme para quem quisesse.
não é sempre que saímos de casa, e principalmente do trabalho, com uma vontade enorme de viver e curtir sua cidade pós dia tão caótico contra dilma e copa.
é preciso se entregar aos momentos.
ela sentou ao lado do cara com uma caveira no rosto, puxou um papo qualquer, falou sem querer que sua casa estava vazia, foram expulsos do lugar porque o sol já raiava, subiram a consolação bêbados, as calçadas pareciam tortas, água na mão dela, heineken na mão dele, até agora nenhum beijo. 
ela não entendia o sotaque dele muito bem, já estava tudo duplicamente complicado.
casa. cama. sexo com desconhecido. quanto tempo o corpo dela não se entregava a um estranho. sem sentimentos. sem ressentimentos. apenas pele e tesão. o vazio continua dentro dela, mesmo eles dormindo de conchinha, respiração no cangote. ela nunca consegue dormir bem com alguém, ainda mais quando o andar de cima resolve martelar as dez horas da manhã.
noite mal dormida, boca seca, cabeça dolorida, cheiro de sexo pelo corpo e pelo lençol limpo, um corpo desconhecido grudado ao dela, a pele dele era macia e gostosa pra fazer carinho, mas ela não fez. não sentiu vontade. ela só conseguia pensar que horas ele ia embora, que horas que a martelada ia acabar, droga! perdeu a feira na rua debaixo e ainda nem fez sexo matinal.




10 maio, 2014

alguém me salva dessa solidão crônica

nessa solidão crônica, nesses dias amargamente vazios, encontro até minhas pessoas preferidas no mundo e ainda continuo vazia. tomo cerveja e acabo com maços de cigarros, mas meu peito ainda quase rasga de tanto desprazer e solidão.
a sensação de vazio está dentro de mim. carrego a solidão nos lugares mais cheios de são paulo. virou de praxe voltar pra casa com a vontade mais forte de chorar, e choro quando encaro essa cama e esse quarto tão vazios. quando se está sozinho pelo mundo, parece que tudo é maior. o vazio é tão imenso que ele aumenta o tamanho de tudo para eu me sentir menor.
a vida não faz sentido quando você não ama, e principalmente quando você não é amado.

06 março, 2014

o início do fim

tenho pensado muito sobre meu esgotamento por são paulo.
é aquele papo clichê sobre a relação intensa de amor-e-ódio, porém não só isso.
acredito que cada lugar tem seu tempo de descobrimento.
são paulo se esgotou principalmente por estar marcado. zona norte, zona oeste, zona sul e até um pouquinho da zona leste. quantas esquinas e bares, trajetos de ônibus, calçadas, estações de metrô, ruas, bairros, tudo tem história. não tem mais graça. já fiz, refiz e criei novas histórias numa mesma avenida ou quarteirão. já chorei, já ri, já amei, já odiei, já gritei, já abracei a mesma pessoa ou até pessoas diferentes no mesmo metro quadrado em tempos diferentes ou na mesma noite.
todo dia constróem arranha-céus gigantes e espelhados, todo dia inauguram bares, pizzarias ou galerias de arte, mas eu não tenho criado mais história. cansei de são paulo. embora ainda me encante todo dia ao pular poças pelas calçadas ou descobrir detalhes novos e escondidos. me encanta porque estou inteiramente disposta e entregue a são paulo, ainda acreditando no amor que existe aqui.

talvez o problema não seja são paulo.
são paulo será sempre são paulo, no seu cinza por excelência, na sua movimentação caótica e linda, na sua programação cultural, na sua falta de lugares para a água escorrer, na sua ânsia de ser mais megalópole, mais acesa, mais capitalista, mais instantânea, mais competitiva, mais sufocante.

estou num processo de desconstrução e desapego.
são paulo será sempre minha terra e minha origem, portanto decidi que quero ares mais limpos, vistas mais azuis, quero novas esquinas e novos bares para construir novos amores.
o mundo é muito grande pra nascermos e morrermos no mesmo lugar.

05 março, 2014

a primeira coisa que você disse quando acordamos foi que eu faço carinho até dormindo.

17 fevereiro, 2014

em construção

queria conseguir juntar toda dor que já senti por você e transformá-la em coragem pra mudar totalmente de vida.

uma nova dor

quando os sonhos sonhados por duas pessoas apaixonadas são vividos por uma dessas pessoas com outra pessoa.

14 fevereiro, 2014

eu disse que era um dom

meu mapa astrológico comprovou: tenho o dom para ser amante.

quem sabe um dia.

se você conseguiu se apaixonar assim, quer dizer que eu também me apaixonarei um dia também, não é?