09 maio, 2009

a realidade dentro do trem

era quarta feira, são paulo estava cinza, o Sol se escondia entre as nuvens e de vez em quando conseguia esquentar quem procurava por ele. peguei metro e trem como todos os dias. escolhi um vagão qualquer, um mais vazio, queria sentar, mochila pesada. quando o trem pára e abre as portas na barra-funda aquele vagão enche. carrinhos com melões e atemóias, de monte, atrapalhando gritantemente a passagem. pessoas de pé, sentadas no chão, expremidas nos bancos. entram dois caras conversando, um com violão, outro com cabelo cor de fogo. começam a tocar 'No dia em que saí de casa minha mãe me disse filho vem cá...' e eu me empolguei porque lembrei do filme dois filhos de Francisco e sabia o que significava aquela letra. o do cabelo cor de fogo viu meus lábios se mexendo, continuou a cantar e andar pelo vagão, por entre pernas, sacolas e melões. e eu sentada ali, sem conseguir piscar, queria ter uma máquina pra registrar as bizarrices belas e diárias. 'Mas ela sabe que depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar' e estava chegando minha estação e não queria perder a continuação daquilo, parecia cenário pra um filme nacional. era realidade. havia gritos dos comerciantes ambulantes, quem quer? quem quer tesoura? bala? amendoim? escutava vozes, risadas, as cordas do violão. meus pensamentos conseguiram silenciar tudo à volta, eram mais altos, meus olhos queriam registrar tudo, não perder nenhum detalhe. deixei aquele assento sujo, aquele vagão único, mágico, tão real pensando que nem todos os dias é tão ruim pegar trem. a realidade está dentro de um trem.