11 julho, 2009

lama nos pés

pela janela branca via-se aquela chuva constante. no silêncio litorâneo, escutava-se apenas a chuva. nem o barulho das ondas fortes escutava-se mais. perdi o horizonte. o sol pareceu sumir durante dias. fazia frio, eu não levei roupa quente, apenas shorts e camisetas. incompleta, tediada, aquele apartamento é pequeno demais pra mim. desejei são paulo profundamente. prefiro o caos, o cinza paulistano. fazia muito frio, muito frio. resolvi voltar pra são paulo antes e vesti um shorts jeans e um moleton vermelho, precisava de alguma cor em mim. me deixaram ali na praça panamericana 8am. eu carregava meu corpo trêmulo, minha bolsa e um guarda-chuva ridículo nas mãos. assim que saí do carro pisei na lama. afundei meus dedos naquela coisa nojenta e marrom, minhas unhas ficaram sujas. que ódio. por que eu estava ali mesmo? esperei mais de 10 min naquele ponto desconhecido, precisando de um cigarro, tinha um posto ali na esquina, mas não queria perder meu ônibus. entrei, ainda bem que estava vazio, mas mesmo assim todos olhos perguntavam pra mim que roupa era aquela. minha perna já estava roxa. desci ali no ceasa pra pegar o terminal pirituba. não existia ponto de ônibus, a água suja de chuva e cidade ocupava a calçada inteira. uma velha puxou assunto comigo, roubaram o celular dela. pensei que meu sábado não era o único ruim. tava ruim pra todo mundo debaixo daquela chuva imensa. meu ônibus passou e tava vazio também, ufa. desci num ponto depois do costume, mais perto da padaria. marlboro azul, era o único que tinha maço. abri, peguei o isqueiro, acendi. eu tava pensando em parar depois de quase 1 semana sem fumar na praia. mas eu precisava. essa situação toda, as coisas dando errado, a saudade e as dúvidas aumentando. existia lama entre meu pé e meu chinelo. eu escorregava andando pela rua de casa, não chovia mais. tomei um dos melhores banhos da minha vida, quente. não pensei em mais nada quando senti aquela água quente nos meus pés tirando toda sujeira da rua, da lama, de mim. as vezes é preciso se sujar pra sentir limpa depois. e agora estou limpa, quente, mas ainda vazia por dentro.