ligaram e eu disse para virem me buscar, vamos jantar num lugar legal, a noite está tão agradável. pararam ali um pouco antes da muvuca toda, entrei no carro, cheiro de cerveja, cheiro de pele queimada, vermelhos, vamos ali no Chinês em Pinheiros, comer algum macarrão, sei lá. restaurante pequeno e aconchegante, famílias nas mesas, éramos só mais uma. pede mais cerveja, pra mim um suco, minha cabeça me matava por dentro. me vê um macarrão shop shuey pra três, daqueles fritos com bastante legumes, que fome!, conversas alheias. era irritante o jeito dele brincalhão demais, falador demais, tirador demais, cerveja demais. isso cansa, cansa quando faz parte dos seus finais de semana, cansa uma filha ter que falar pro pai 'ei, chega né?' - tentei ao máximo conversar, falar em tom baixo, em palavras sinceras e mansas, olhos nos olhos, tentei dizer que entendo tudo o que eles prezam e são, mas que não serei como eles, nem como elas. valorizo tanto tanto, eles não imaginam como e eu nem sei mais como demonstrar isso. parece que eles são cegos pelos príncipios, pela razão. qual razão? a deles? eu tenho a minha razão e basta ela pra eu viver. palavras ofensivas, silêncio, olhares procurando coisas nas paredes, na bolsa ou qualquer lugar fugitivo daquela conversa chata, desgastante. ela saiu da mesa, foi pagar a conta, eu levantei, senti asco, asco por mim, por eles, pela cerveja, por essa situação tão constante ultimamente. ele foi o último a sair da mesa, saiu direto, atravessamos a rua, entrei no carro. no caminho de casa só escutava as guitarras no rádio, aquele cd que ele tanto gosta, ela dirigia, se perdia nas ruas paradas de são paulo. eu ia atrás, com frio do ar condionado, pensando que se eu acendesse um cigarro talvez eles nem percebessem, eu precisava de um alívio. encostei a cabeça no banco, senti dor, queria chorar como chorei sábado, porém queria mais, queria gritar, soluçar, dizer que eu os amo muito (mais que tudo até) mas não dá. não dá. eu preciso me planejar, procurar um emprego legal, fazer a faculdade que quero, não depender deles, não aguento mais essa dependência. me sinto mal a cada um real que peço, a cada dia que deixo de fazer minhas coisas por eles. a cada briga que me desgasta de uma forma que me faz pensar em desistir de viver. cheguei em casa com aquele sono, abri a porta, troquei de roupa, liguei o computador pensando que teria alguém interessante on line, sábado as 23h não tem ninguém em casa, marcella, abri o blog mas não conseguia escrever, tudo estava a mil na mente, não sabia digerir aquelas palavras bêbadas sinceras, não quero digerí-las, por isso tive que esperar mais um dia pra poder escrever, tive que descansar, passar uma noite inteira dormindo, de vez em quando acordando entre os lençóis bagunçados e ficar lembrando que sonhei com aquele jantar, aquele macarrão e aquela conversa, sonhei que fumei na frente deles, me senti tão mais eu, acordava com medo de qualquer coisa, será que fiz mesmo?. sonhei coisas paralelas mas tão ruins quanto. era algo como não ter mais ninguém ao meu lado, aquele que amo tinha me deixado, eu estava perdida. acordei suando, tirei o edredon de cima de mim, vi que horas eram, respirei mais fundo, virei de lado, abracei meu pinguim de pelúcia, senti que ainda tinha alguém sim, era apenas um sonho. dormi de novo pra acordar as 11 da manhã, desci na cozinha, comi meu pão com queijo e eles estavam lá, bom dia, dormiu bem?, tudo normal, parece que não existiram cervejas nem ofensas, nem choros internos. tudo volta a rotina, cada um vivendo sua vida mas convivendo na mesma casa, dependendo um do outro pra conseguir conviver, amando os defeitos, os excessos.
pensei em tomar um banho, almoçar qualquer coisa e sair, ir para um parque, deitar na grama debaixo do Sol, sentir paz, me sentir de novo, pensei ir naquele show que tanto gosto, naquele lugar legal que sempre quis conhecer, pegar um ônibus cheio mesmo sendo domingo, fazer o quero. eu vou tomar um banho e tirar esse cheiro de asco, de desgosto, preciso de qualquer coisa que me faça bem fora daqui.