é a mesma sensação que senti dentro do carro subindo a serra vestida de neblina. aquela parede branca, só ao longe via-se um par de luzes vermelhas. abri a janela e pude sentir apenas frio, frio de alguma coisa branca que me cegava e me dava medo. uma sensação estranha de que não tenho controle de nada, quase não sou nada (comparada a tantas outras coisas). vi-me abrindo aquela porta que me sufovaca, andei pelo acostamento esbranquiçado, tive medo dos carros alheios, da imensidão ao meu redor, tive medo de qualquer outra coisa que não sei definir. como queria ter feito isso, mas hesitei - não sou louca - tranquei a porta.
sensações são estranhas, estão continuamente conosco, são ruins e são boas. na maioria das vezes, ruins - na verdade, ultimamente tem sido ruins - para mim.
ao colocar os pés descalços e frescos no painel do carro, aumentando o som do carro que tocava are you in? e insanamente me mexia naquele banco tão limitado de movimentos. 'What's so wrong with being happy?' com a janela aberta, vento no rosto, cabelo engraçado. e mesmo que o mar e o céu misturavam-se em um só cinza nos ameaçando de alguma chuva qualquer, pude sentir satisfação por estar ali. por estar longe de cidade, de gente, de barulho, de festas. eu precisava me sentir, terminar meu livro, ver televisão, conversar deitada na cama, chorar durante o almoço familiar, visitar lugares que me fazem bem, beber alguma bebida docinha que só se bebe em frente dos pais. rir de fatos, lembrar de épocas, amar mais, odiar algumas palavras e manias, saber que preciso deles pra continuar. essas são sensações boas. cantar num coro familiar 'I'd do anything, anything you can dream of; I'd do anything, anything for your love' e tocar baterias e guitarras imaginárias. falar no celular perto da janela e escutar a voz mais doce dizendo que tá com saudade. desejei em toda a viagem que você estivesse pensando em mim assim como não parei um minuto de pensar em ti, no quão bom seria você ali comigo em todos os lugares que fui.
não queria sentir as más sensações ao enfrentar esse trânsito paulistano caótico, nem ao ver o horário no relógio do rádio percebendo que era tarde demais pra matar a saudade de quem eu tanto desejei ver naquela noite. ver fotos indesejadas, querendo fazer parte delas, ver palavras falsas ou despreocupadas demais, escutar o silêncio que tanto me ensurdece, mudar de telefone, apertar mais forte contra a orelha. dói tanto aqui dentro como dói a orelha de quem fica duas horas ou mais no telefone, dói mais, na verdade. me corrói contar uma verdade sem base, sem fundamento, corrói-me mais ter que aceitá-la e viver com ela dentro de mim, de você, da gente. preciso escutar seu sorriso, preciso saber que existem mil caixinhas reservadas pra mim. preciso de um cigarro escondido em meio ao luar da madrugada e ao silêncio que me confunde.
quero as boas sensações de novo, sentir àquele vento no rosto escutando uma música libertadora com os pés leves. mas dessa vez, preciso estar de mãos dadas contigo, sentindo seu perfume pelo ar, escutar sua voz junto com a música, sentir-te perto de mim, me dando a certeza de que esse é nosso reino.
"Só de te ver eu penso em trocar a minha tv num jeito de te levar a qualquer lugar que você queira e, ir onde o vento for que pra nós dois, sair de casa já é se aventurar..."