29 novembro, 2008

reflexo

imagem no espelho, lágrimas pretas na face, um monstro.
muita dor, profunda, imensa, doída. ficar de pé era quase impossível. acomodou-se naquele lavabo pequeno, daqueles que tem debaixo da escada.
fraca, muito fraca. seus gemidos e soluços saiam aos poucos, altos e profundos. queria ensurdecer todos no mundo. porque pra ela, o silêncio a tinha ensurdecido.
os olhos ardiam porque a maquiagem misturou-se com tanta lágrima, ardiam de tanto chorar, ardiam porque tudo doía de alguma forma. mais uma dor não faria diferença.
seu coração não existia, tinha desmanchado de desgosto por ele próprio. sua alma parecia doente, culpada, inatingível. o que restava? um corpo debilitado no chão do banheiro. em meio aos latidos da madrugada, ninguém sabia que alguém estava acordado (ou fora da cama) naquela casa. porta trancada, quem a veria ali? podia morrer, apodrecer que ninguém perceberia.
pensou no conto de caio fernando, quando a mãe de Raul morre, e ele se sente feio e triste e feio. 'podia ter sido mais legal com ela', seu feio feio e triste e feio.
ela se sentia muito triste, muito feia, pior que um monstro. as vozes ficavam na sua cabeça, rodando, bagunçando, enlouquecendo. não tinha maconha nem álcool, era tristeza, era dor. pior que qualquer droga, pior que qualquer coisa.
odiava ver sua imagem no espelho, e quanto mais via, mais gemia de dor.
ficou por lá até não aguentar mais, abriu a porta, estava frio. descalça subiu as escadas, limpou os olhos, deitou na cama quente, aconchegante, dormiu se sentindo melhor. talvez não era um monstro quando não via seu reflexo no espelho.