a palavra salva. a palavra escraviza. quanto mais a uso, mais busco por outras. a falta, a procura, incessantemente. é daí que surgem os desentendimentos: pela escravização da palavra. quem não discute, não vive. quem não se desentende com quem mais ama, nunca se sentirá completo. qualquer relacionamento é construído por desentendimentos. são eles que nos fazem continuar a viver e ter beleza. palavras são autoritárias, sinceras, perversas, penetrantes. não há liberdade com a palavra. é preciso seguir o padrão, as leis, pra tudo tem-se um nome, e ponto, não mudará. mas tudo isso faz parte de uma representação - que é a vida. somos todos e apenas atores, vivemos o real e depois narramos de alguma forma estética a realidade (algo passado). porém somente os melhores (atores) conseguem enxergar o belo. não a beleza, mas a virtude das coisas não-físicas. virtude de sentir dor, de sofrer por amor, de expressar sentimentos, de provocar, de criar alguma moral dentro de alguma sociedade. só há virtude com estética, e essa, por sua vez, é a sensibilidade, o corpo, os desejos e vícios. por isso é muito maior que a racionalidade, já que envolve tudo, principalmente os sentidos. esses que nos fazem ser belos virtuosos vivendo em meios aos desentendimentos-construtivos, e afinal, felizes.
(isso que uma aula maravilhosa de estética e filosofia da arte faz com a gente)
16 fevereiro, 2009
08 fevereiro, 2009
fim
luzes e cristais pendurados, cores completando cores, música alta, rodas de dança, amarelos, verdes, vermelhos, azuis, sem cores, bebidas amarelas, sementes de maracujá, conversas e risadas. la macarena, britney, chão, justice, cervejas, cinzeiros, varanda, calor, varanda de novo. quarto e banheiro cheios, sofás sem lugar, paredes manchadas, sorrisos grandes e olhos pequenos, mais cerveja, mais amarelo. rebouças, escada, sujeira, silêncio, pingos refrescantes. de volta ao barulho, ao inferno, coca cola, água, quarto vazio, cama macia, abajur aceso, janela aberta, sacola suja, coração partido, sozinha, chorar em silêncio, batidas na porta, lágrimas pretas, passado, verdades contadas, sensações ruins, banquinho na varanda, overdose de palavras, overdose de gente. excessos, quarto de novo, silêncio absoluto, eu queria voz, queria abraço, queria ir embora, 5am. sala vazia, luzes apagadas, troca de cama, 6am, cama pequena, calor, barulho urbano, cheio do ralo, sem ressaca, talvez ressaca de palavras, de barulhos, de coisas. pão com requeijão e coca cola. calor externo, frieza interna. que foi? silêncio e mais silêncio. porra, cansei das buzinas e motores, quero sua voz.
banho gelado, qualquer roupa, comida, solidão de novo, muita. acendi velas, era de noite, fiquei sem energia, e sozinha. o que seria do homem sem energia? números discados desesperadamente, tututututu. cansei, pensei em ficar ali deitada pra sempre. sem mensagens, sem triliiim do telefone, sozinha, me senti sozinha, muito. tive medo, quis ir pra rua, tinha mais claridade, as velas não me dão segurança. a luz voltou, a música voltou, a tv voltou, mas eu não, ainda me sentia sozinha. o que seria do homem sem companhia? tive medo de tanta coisa.
mas agora isso nada mais importa, acabou! (e ponto)
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
banho gelado, qualquer roupa, comida, solidão de novo, muita. acendi velas, era de noite, fiquei sem energia, e sozinha. o que seria do homem sem energia? números discados desesperadamente, tututututu. cansei, pensei em ficar ali deitada pra sempre. sem mensagens, sem triliiim do telefone, sozinha, me senti sozinha, muito. tive medo, quis ir pra rua, tinha mais claridade, as velas não me dão segurança. a luz voltou, a música voltou, a tv voltou, mas eu não, ainda me sentia sozinha. o que seria do homem sem companhia? tive medo de tanta coisa.
mas agora isso nada mais importa, acabou! (e ponto)
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
Hard times hard times come again no more
06 fevereiro, 2009
tô dentro
Caio sabe dizer melhor que eu ...
"Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver."
"Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver."
29 novembro, 2008
reflexo
imagem no espelho, lágrimas pretas na face, um monstro.
muita dor, profunda, imensa, doída. ficar de pé era quase impossível. acomodou-se naquele lavabo pequeno, daqueles que tem debaixo da escada.
fraca, muito fraca. seus gemidos e soluços saiam aos poucos, altos e profundos. queria ensurdecer todos no mundo. porque pra ela, o silêncio a tinha ensurdecido.
os olhos ardiam porque a maquiagem misturou-se com tanta lágrima, ardiam de tanto chorar, ardiam porque tudo doía de alguma forma. mais uma dor não faria diferença.
seu coração não existia, tinha desmanchado de desgosto por ele próprio. sua alma parecia doente, culpada, inatingível. o que restava? um corpo debilitado no chão do banheiro. em meio aos latidos da madrugada, ninguém sabia que alguém estava acordado (ou fora da cama) naquela casa. porta trancada, quem a veria ali? podia morrer, apodrecer que ninguém perceberia.
pensou no conto de caio fernando, quando a mãe de Raul morre, e ele se sente feio e triste e feio. 'podia ter sido mais legal com ela', seu feio feio e triste e feio.
ela se sentia muito triste, muito feia, pior que um monstro. as vozes ficavam na sua cabeça, rodando, bagunçando, enlouquecendo. não tinha maconha nem álcool, era tristeza, era dor. pior que qualquer droga, pior que qualquer coisa.
odiava ver sua imagem no espelho, e quanto mais via, mais gemia de dor.
ficou por lá até não aguentar mais, abriu a porta, estava frio. descalça subiu as escadas, limpou os olhos, deitou na cama quente, aconchegante, dormiu se sentindo melhor. talvez não era um monstro quando não via seu reflexo no espelho.
muita dor, profunda, imensa, doída. ficar de pé era quase impossível. acomodou-se naquele lavabo pequeno, daqueles que tem debaixo da escada.
fraca, muito fraca. seus gemidos e soluços saiam aos poucos, altos e profundos. queria ensurdecer todos no mundo. porque pra ela, o silêncio a tinha ensurdecido.
os olhos ardiam porque a maquiagem misturou-se com tanta lágrima, ardiam de tanto chorar, ardiam porque tudo doía de alguma forma. mais uma dor não faria diferença.
seu coração não existia, tinha desmanchado de desgosto por ele próprio. sua alma parecia doente, culpada, inatingível. o que restava? um corpo debilitado no chão do banheiro. em meio aos latidos da madrugada, ninguém sabia que alguém estava acordado (ou fora da cama) naquela casa. porta trancada, quem a veria ali? podia morrer, apodrecer que ninguém perceberia.
pensou no conto de caio fernando, quando a mãe de Raul morre, e ele se sente feio e triste e feio. 'podia ter sido mais legal com ela', seu feio feio e triste e feio.
ela se sentia muito triste, muito feia, pior que um monstro. as vozes ficavam na sua cabeça, rodando, bagunçando, enlouquecendo. não tinha maconha nem álcool, era tristeza, era dor. pior que qualquer droga, pior que qualquer coisa.
odiava ver sua imagem no espelho, e quanto mais via, mais gemia de dor.
ficou por lá até não aguentar mais, abriu a porta, estava frio. descalça subiu as escadas, limpou os olhos, deitou na cama quente, aconchegante, dormiu se sentindo melhor. talvez não era um monstro quando não via seu reflexo no espelho.
18 novembro, 2008
brighter than sunshine

cheguei sozinha, umas duas horas antes, desci as escadas encantada, que lugar lindo. as pessoas ainda estavam chegando, se conhecendo, se acomodando. voltei lá fora, sentei perto da grama, minhas pernas e meus ombros se aqueciam com aquele Sol não tão quente. escutava-se a música vinda de dentro, eu gostei daquele dj, talvez fumei os melhores cigarros naquele lugar. esperei e esperei, pensava em qualquer coisa, mexia no celular, olhava o pequeno movimento dos carros lá fora. era domingo, um domingo agradável. entrei de novo, andei mais, desci mais escadas, vi mais gente. não tinha graça sem você, não tinha. eu precisava de alguém para comentar 'ei, vc viu aquilo?' - você demorou demais pra chegar. pensei em ir embora, pensei que ficaria ali sentada por horas e você não apareceria. tive medo, bem bobo, eu diria, mas tive. não sei porque sinto essas coisas as vezes, não é insegurança, é receio. insegurança e receio são coisas diferentes, não são? depois de tanto tempo, depois de tanta gente chegar feliz e passar por mim, comecei a me desesperar. fumava incontrolavelmente. talvez hoje eu entenda o que o camelo disse, do cigarro ser a melhor companhia em tanta solidão. claro, não cheguei ao ponto de me afundar na solidão, aliás, naquele lugar verde, claro, vivo, nem tinha como. mas por dentro eu sentia, sentia muita coisa ruim, muito medo. as lágrimas sairam descontroladas e tímidas, um soluço baixo, abaixei a cabeça pra respirar fundo, quando levantei meus olhos em direção àquela entrada que não tirei meus olhos por duas horas, vi você entrando, bem na hora pra me socorrer. você puxou minha mão e me levantou naquele chão que parecia ter formado um buraco debaixo de mim. me abraçou, disse que me amava, que nunca me abandonaria. agora o choro não era de medo, era de conforto, de amor. obrigada por existir, por me amar, por estar comigo. me senti viva de novo, desci as escadas de outra forma, mais confiante, querendo mostrar que alguém segurava minha mão. eu tenho você. 'What a feeling in my soul. Love burns brighter than sunshine, brighter than sunshine. I'm yours and suddenly you're mine, suddenly you're mine'.
e naquele sofá tão branco, me senti suja ao dizer pra você porque estava chorando, não sei se é besteira, acredito que não, porque sentimentos e sensações não são besteiras. eles só estavam confusos, um pouco errados. e todos os momentos seguintes foram ótimos. todos momentos contigo são ótimos. você me traz um alívio!
'Love will remain a mystery, but give me your hand and you will see your heart is keeping time with me'.
16 novembro, 2008
o jantar
ligaram e eu disse para virem me buscar, vamos jantar num lugar legal, a noite está tão agradável. pararam ali um pouco antes da muvuca toda, entrei no carro, cheiro de cerveja, cheiro de pele queimada, vermelhos, vamos ali no Chinês em Pinheiros, comer algum macarrão, sei lá. restaurante pequeno e aconchegante, famílias nas mesas, éramos só mais uma. pede mais cerveja, pra mim um suco, minha cabeça me matava por dentro. me vê um macarrão shop shuey pra três, daqueles fritos com bastante legumes, que fome!, conversas alheias. era irritante o jeito dele brincalhão demais, falador demais, tirador demais, cerveja demais. isso cansa, cansa quando faz parte dos seus finais de semana, cansa uma filha ter que falar pro pai 'ei, chega né?' - tentei ao máximo conversar, falar em tom baixo, em palavras sinceras e mansas, olhos nos olhos, tentei dizer que entendo tudo o que eles prezam e são, mas que não serei como eles, nem como elas. valorizo tanto tanto, eles não imaginam como e eu nem sei mais como demonstrar isso. parece que eles são cegos pelos príncipios, pela razão. qual razão? a deles? eu tenho a minha razão e basta ela pra eu viver. palavras ofensivas, silêncio, olhares procurando coisas nas paredes, na bolsa ou qualquer lugar fugitivo daquela conversa chata, desgastante. ela saiu da mesa, foi pagar a conta, eu levantei, senti asco, asco por mim, por eles, pela cerveja, por essa situação tão constante ultimamente. ele foi o último a sair da mesa, saiu direto, atravessamos a rua, entrei no carro. no caminho de casa só escutava as guitarras no rádio, aquele cd que ele tanto gosta, ela dirigia, se perdia nas ruas paradas de são paulo. eu ia atrás, com frio do ar condionado, pensando que se eu acendesse um cigarro talvez eles nem percebessem, eu precisava de um alívio. encostei a cabeça no banco, senti dor, queria chorar como chorei sábado, porém queria mais, queria gritar, soluçar, dizer que eu os amo muito (mais que tudo até) mas não dá. não dá. eu preciso me planejar, procurar um emprego legal, fazer a faculdade que quero, não depender deles, não aguento mais essa dependência. me sinto mal a cada um real que peço, a cada dia que deixo de fazer minhas coisas por eles. a cada briga que me desgasta de uma forma que me faz pensar em desistir de viver. cheguei em casa com aquele sono, abri a porta, troquei de roupa, liguei o computador pensando que teria alguém interessante on line, sábado as 23h não tem ninguém em casa, marcella, abri o blog mas não conseguia escrever, tudo estava a mil na mente, não sabia digerir aquelas palavras bêbadas sinceras, não quero digerí-las, por isso tive que esperar mais um dia pra poder escrever, tive que descansar, passar uma noite inteira dormindo, de vez em quando acordando entre os lençóis bagunçados e ficar lembrando que sonhei com aquele jantar, aquele macarrão e aquela conversa, sonhei que fumei na frente deles, me senti tão mais eu, acordava com medo de qualquer coisa, será que fiz mesmo?. sonhei coisas paralelas mas tão ruins quanto. era algo como não ter mais ninguém ao meu lado, aquele que amo tinha me deixado, eu estava perdida. acordei suando, tirei o edredon de cima de mim, vi que horas eram, respirei mais fundo, virei de lado, abracei meu pinguim de pelúcia, senti que ainda tinha alguém sim, era apenas um sonho. dormi de novo pra acordar as 11 da manhã, desci na cozinha, comi meu pão com queijo e eles estavam lá, bom dia, dormiu bem?, tudo normal, parece que não existiram cervejas nem ofensas, nem choros internos. tudo volta a rotina, cada um vivendo sua vida mas convivendo na mesma casa, dependendo um do outro pra conseguir conviver, amando os defeitos, os excessos.
pensei em tomar um banho, almoçar qualquer coisa e sair, ir para um parque, deitar na grama debaixo do Sol, sentir paz, me sentir de novo, pensei ir naquele show que tanto gosto, naquele lugar legal que sempre quis conhecer, pegar um ônibus cheio mesmo sendo domingo, fazer o quero. eu vou tomar um banho e tirar esse cheiro de asco, de desgosto, preciso de qualquer coisa que me faça bem fora daqui.
pensei em tomar um banho, almoçar qualquer coisa e sair, ir para um parque, deitar na grama debaixo do Sol, sentir paz, me sentir de novo, pensei ir naquele show que tanto gosto, naquele lugar legal que sempre quis conhecer, pegar um ônibus cheio mesmo sendo domingo, fazer o quero. eu vou tomar um banho e tirar esse cheiro de asco, de desgosto, preciso de qualquer coisa que me faça bem fora daqui.
11 novembro, 2008
sobre Caio
é sobre conversas debaixo do guarda-chuva, pés molhados, são paulo fria e tão aconchegante. no 15º andar, aquecedor, alguma esfiha de verdura e cerveja, esperando aquelas palavras que tanto já sabe de cor, que tanto já usou como se fosse as próprias. e naquela confusão de eus: de raul e de saul, de rotina e café, van gogh e cazuza, naquele deserto de almas, filmes como estopim para qualquer conversa e para no fim, misturar-se. e misturaram. deitaram nus e quase a noite inteira viam a brasa acesa do cigarro do outro. não importa se foram despedidos, se foram nominados aberrações por qualquer anonimato, "Um Atento Guardião da Moral", eles tinham um ao outro, e pra sempre (pela primeira vez um 'pra sempre' fez muito sentido pra mim). e naquelas poucas luzes e muitas palavras, chorei, chorei porque doía lá dentro, caio fernando sabe tocar na alma, deixa o amargo, o triste-muito-triste. e foi após a alma lavada, a maquiagem borrada e os telefonemas não atendidos, que saímos dali, na chuva, atravessando a paulista inteira. é sobre conversas debaixo do guarda-chuva, sobre pés molhados, sobre qualquer coisa que nos fazia sentir bem, afinal, éramos outras pessoas.
eu sentia saudade de rir tanto como ri, dançar com a alma, ver sorrisos lindos de cima do palco, do sorriso apaixonado ao sorriso amigável, aquela luz que me fazia suar de alegria, sensações, muitas sensações, te ter por perto, beber qualquer coisa gelada refrescando meu corpo, cigarros acesos compulsivamente, sofás debaixo do ar condicionado, músicas que me faziam sair do sofá e me jogar na pista, só eu e você, luzes piscando, pézinhos juntos, corações entrelaçados e palavras de monte. porque sou sua menina e você é meu menino. tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
eu sentia saudade de rir tanto como ri, dançar com a alma, ver sorrisos lindos de cima do palco, do sorriso apaixonado ao sorriso amigável, aquela luz que me fazia suar de alegria, sensações, muitas sensações, te ter por perto, beber qualquer coisa gelada refrescando meu corpo, cigarros acesos compulsivamente, sofás debaixo do ar condicionado, músicas que me faziam sair do sofá e me jogar na pista, só eu e você, luzes piscando, pézinhos juntos, corações entrelaçados e palavras de monte. porque sou sua menina e você é meu menino. tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
05 novembro, 2008
poema de natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
03 novembro, 2008
as sensações
é a mesma sensação que senti dentro do carro subindo a serra vestida de neblina. aquela parede branca, só ao longe via-se um par de luzes vermelhas. abri a janela e pude sentir apenas frio, frio de alguma coisa branca que me cegava e me dava medo. uma sensação estranha de que não tenho controle de nada, quase não sou nada (comparada a tantas outras coisas). vi-me abrindo aquela porta que me sufovaca, andei pelo acostamento esbranquiçado, tive medo dos carros alheios, da imensidão ao meu redor, tive medo de qualquer outra coisa que não sei definir. como queria ter feito isso, mas hesitei - não sou louca - tranquei a porta.
sensações são estranhas, estão continuamente conosco, são ruins e são boas. na maioria das vezes, ruins - na verdade, ultimamente tem sido ruins - para mim.
ao colocar os pés descalços e frescos no painel do carro, aumentando o som do carro que tocava are you in? e insanamente me mexia naquele banco tão limitado de movimentos. 'What's so wrong with being happy?' com a janela aberta, vento no rosto, cabelo engraçado. e mesmo que o mar e o céu misturavam-se em um só cinza nos ameaçando de alguma chuva qualquer, pude sentir satisfação por estar ali. por estar longe de cidade, de gente, de barulho, de festas. eu precisava me sentir, terminar meu livro, ver televisão, conversar deitada na cama, chorar durante o almoço familiar, visitar lugares que me fazem bem, beber alguma bebida docinha que só se bebe em frente dos pais. rir de fatos, lembrar de épocas, amar mais, odiar algumas palavras e manias, saber que preciso deles pra continuar. essas são sensações boas. cantar num coro familiar 'I'd do anything, anything you can dream of; I'd do anything, anything for your love' e tocar baterias e guitarras imaginárias. falar no celular perto da janela e escutar a voz mais doce dizendo que tá com saudade. desejei em toda a viagem que você estivesse pensando em mim assim como não parei um minuto de pensar em ti, no quão bom seria você ali comigo em todos os lugares que fui.
não queria sentir as más sensações ao enfrentar esse trânsito paulistano caótico, nem ao ver o horário no relógio do rádio percebendo que era tarde demais pra matar a saudade de quem eu tanto desejei ver naquela noite. ver fotos indesejadas, querendo fazer parte delas, ver palavras falsas ou despreocupadas demais, escutar o silêncio que tanto me ensurdece, mudar de telefone, apertar mais forte contra a orelha. dói tanto aqui dentro como dói a orelha de quem fica duas horas ou mais no telefone, dói mais, na verdade. me corrói contar uma verdade sem base, sem fundamento, corrói-me mais ter que aceitá-la e viver com ela dentro de mim, de você, da gente. preciso escutar seu sorriso, preciso saber que existem mil caixinhas reservadas pra mim. preciso de um cigarro escondido em meio ao luar da madrugada e ao silêncio que me confunde.
quero as boas sensações de novo, sentir àquele vento no rosto escutando uma música libertadora com os pés leves. mas dessa vez, preciso estar de mãos dadas contigo, sentindo seu perfume pelo ar, escutar sua voz junto com a música, sentir-te perto de mim, me dando a certeza de que esse é nosso reino.
"Só de te ver eu penso em trocar a minha tv num jeito de te levar a qualquer lugar que você queira e, ir onde o vento for que pra nós dois, sair de casa já é se aventurar..."
sensações são estranhas, estão continuamente conosco, são ruins e são boas. na maioria das vezes, ruins - na verdade, ultimamente tem sido ruins - para mim.
ao colocar os pés descalços e frescos no painel do carro, aumentando o som do carro que tocava are you in? e insanamente me mexia naquele banco tão limitado de movimentos. 'What's so wrong with being happy?' com a janela aberta, vento no rosto, cabelo engraçado. e mesmo que o mar e o céu misturavam-se em um só cinza nos ameaçando de alguma chuva qualquer, pude sentir satisfação por estar ali. por estar longe de cidade, de gente, de barulho, de festas. eu precisava me sentir, terminar meu livro, ver televisão, conversar deitada na cama, chorar durante o almoço familiar, visitar lugares que me fazem bem, beber alguma bebida docinha que só se bebe em frente dos pais. rir de fatos, lembrar de épocas, amar mais, odiar algumas palavras e manias, saber que preciso deles pra continuar. essas são sensações boas. cantar num coro familiar 'I'd do anything, anything you can dream of; I'd do anything, anything for your love' e tocar baterias e guitarras imaginárias. falar no celular perto da janela e escutar a voz mais doce dizendo que tá com saudade. desejei em toda a viagem que você estivesse pensando em mim assim como não parei um minuto de pensar em ti, no quão bom seria você ali comigo em todos os lugares que fui.
não queria sentir as más sensações ao enfrentar esse trânsito paulistano caótico, nem ao ver o horário no relógio do rádio percebendo que era tarde demais pra matar a saudade de quem eu tanto desejei ver naquela noite. ver fotos indesejadas, querendo fazer parte delas, ver palavras falsas ou despreocupadas demais, escutar o silêncio que tanto me ensurdece, mudar de telefone, apertar mais forte contra a orelha. dói tanto aqui dentro como dói a orelha de quem fica duas horas ou mais no telefone, dói mais, na verdade. me corrói contar uma verdade sem base, sem fundamento, corrói-me mais ter que aceitá-la e viver com ela dentro de mim, de você, da gente. preciso escutar seu sorriso, preciso saber que existem mil caixinhas reservadas pra mim. preciso de um cigarro escondido em meio ao luar da madrugada e ao silêncio que me confunde.
quero as boas sensações de novo, sentir àquele vento no rosto escutando uma música libertadora com os pés leves. mas dessa vez, preciso estar de mãos dadas contigo, sentindo seu perfume pelo ar, escutar sua voz junto com a música, sentir-te perto de mim, me dando a certeza de que esse é nosso reino.
"Só de te ver eu penso em trocar a minha tv num jeito de te levar a qualquer lugar que você queira e, ir onde o vento for que pra nós dois, sair de casa já é se aventurar..."
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